O conceito de aldeia global, proposto pelo filósofo canadense Herbert Marshall McLuhan na década de 1960, em obras como A Galáxia de Gutenberg (1962) e Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem (1964), mostra-se completamente atual. O que acontece em qualquer parte do mundo nos afeta quase instantaneamente, como se estivéssemos no mesmo ambiente. O planeta tornou-se, de fato, uma “aldeia” em que tudo influencia a todos – sobretudo no campo da política.
Neste século, tem-se observado uma crescente tensão política no Brasil e no mundo. O cenário se agravou com a rearticulação da direita, que muitos consideravam fora de jogo, mas ressurgiu com força e passou a desafiar a hegemonia da esquerda, que, ao menos em território nacional, mantinha posição dominante. Não há problema em existirem dois campos políticos disputando, de forma democrática, o apoio dos eleitores para governar o país. O risco surge quando essas correntes – e, principalmente, seus seguidores – extrapolam a convivência pacífica e avançam para o extremismo da intolerância, transformando o debate em violência e em eliminação simbólica ou física dos opositores.
O recente assassinato de Charlie Kirk, ativista político conservador, baleado durante um evento na Universidade de Utah Valley, nos Estados Unidos, ilustra de forma trágica até onde a intolerância política pode chegar, ao transpor o que antes se limitava ao campo simbólico. Esse episódio lamentável pode desencadear novas ondas de violência, possivelmente ainda mais graves, especialmente em um contexto de surto psicossocial em que as pessoas se mostram altamente suscetíveis a discursos de ódio e, influenciadas por eles, podem reproduzir os mesmos atos.
O Brasil também atravessa um momento delicado, marcado pelo julgamento e pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados, o que tem acirrado ainda mais a intolerância entre conservadores e progressistas. As autoridades precisam manter vigilância e coibir eventuais atos de violência que possam surgir nesse período de tensão. Ao mesmo tempo, cada cidadão deve refletir e compreender que o outro tem o direito de pensar diferente e ser respeitado em sua individualidade. Afinal, a democracia se sustenta na liberdade de escolha e de pensamento – do contrário, corre-se o risco de retroceder a um regime de exceção.
Neste tempo em que a aldeia global vive seu auge, a onda de ameaças de morte também já alcança o Brasil, tornando o cenário ainda mais preocupante. É imprescindível que cada cidadão tenha consciência de que a violência política aprofunda divisões e fragiliza a democracia. O único caminho possível para a construção de uma nação justa e plural é o respeito às diferenças.
Por
Carlos Souza Yeshua, jornalista, especialista em Comunicação e Política e mestre em História pela Universidade de Passo Fundo (UPF) -
carlos-souza@hotmail.com