Guerra contra o Paraguai: se me decifras, te devoro!

18 de abril de 2014 às 09:57

Editoria
<img width="200" hspace="3" height="282" align="right" src="/uploads/image/livro_genocidio-americano_a-guerra-do-paraguai.jpg" alt="" />No Brasil, durante o conflito de 1864-70, n&atilde;o houve oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; guerra imperialista que o Estado imperial livrou contra o Uruguai e o Paraguai. Durante a Rep&uacute;blica Velha, quase apenas os positivistas ortodoxos opuseram-se &agrave; pesada indeniza&ccedil;&atilde;o que gravou o Paraguai, denunciando a agress&atilde;o inaceit&aacute;vel contra as duas pequenas na&ccedil;&otilde;es. Ap&oacute;s 1930, a hist&oacute;ria da guerra da Tr&iacute;plice Alian&ccedil;a contra o Paraguai seguiu sendo esp&eacute;cie de reserva de ca&ccedil;a da historiografia nacional-patri&oacute;tica brasileira, que se limitou no geral a cantar as gl&oacute;rias dos feitos militares mar&iacute;timos e navais tupiniquins naquelas terras distantes.<br /> <br /> Num simplismo constrangedor, a responsabilidade pelos sucessos seguiu sendo lan&ccedil;ada sobre as costas largas de Francisco Solano L&oacute;pez, descrito como ditador ambicioso, pretensioso, b&aacute;rbaro e criminal. Dando-se asas &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o, ele foi acusado, entre outras perip&eacute;cias, de tentar conquistar o Uruguai, Corrientes e o Rio Grande do Sul para garantir ao Paraguai uma sa&iacute;da ao mar! Outra sua ambi&ccedil;&atilde;o desmedida teria sido pedir em casamento uma das filhas de dom Pedro! Apologia e hist&oacute;ria viveram em total contub&eacute;rnio por longas d&eacute;cadas.<br /> <br /> Sequer a historiografia de voca&ccedil;&atilde;o revisionista, impulsionada originalmente por poderosos intelectuais organizados sob a bandeira do PCB &ndash; Caio Prado J&uacute;nior, Werneck Sodr&eacute;, Ruy Fac&oacute;, Passos Guimar&atilde;es etc. &ndash;, voltou-se sobre o tema para apontar as interpreta&ccedil;&otilde;es e reconstru&ccedil;&otilde;es arbitr&aacute;rias dominantes. N&atilde;o raro, sugeriram aquele conflito como cadinho da constitui&ccedil;&atilde;o de novo ex&eacute;rcito, mais republicano e mais popular, fortemente respons&aacute;vel pela Aboli&ccedil;&atilde;o, em 1888, e proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica, em 1889. Para essa interpreta&ccedil;&atilde;o, ao menos, algo de bom o conflito terr&iacute;vel teria deixado ao Brasil.alt<br /> <br /> Enquanto, desde o momento do conflito, avan&ccedil;avam na Argentina, no Uruguai e no Paraguai leituras revisionistas dessacralizantes, no Brasil a guerra fratricida seguiu sendo sisuda esfinge, repetindo monotonamente aos historiadores nacionais: se me decifras, te devoro!<br /> <br /> Em 1979, no momento do lan&ccedil;amento da &ldquo;<b>Abertura lenta, gradual e segura</b>&rdquo;, que garantiu &agrave; ditadura ainda um lustro de vida, ela foi constrangida com a publica&ccedil;&atilde;o pelo jornalista Julio Jos&eacute; Chiavenato de reportagem hist&oacute;rica sobre a grande guerra do Prata. Com t&iacute;tulo chamativo, Genoc&iacute;dio americano: a guerra do Paraguai, o livro alcan&ccedil;ou inesperado sucesso multitudin&aacute;rio, sem qualquer refer&ecirc;ncia na grande m&iacute;dia.<br /> <br /> A den&uacute;ncia daquele conflito como crime do Imp&eacute;rio do Brasil e de seu ex&eacute;rcito, contra pequeno pa&iacute;s que, segundo o autor, destoaria em todas as Am&eacute;ricas pelo desenvolvimento econ&ocirc;mico e social aut&ocirc;nomo, em independ&ecirc;ncia oposta ao imperialismo ingl&ecirc;s, conquistou os cora&ccedil;&otilde;es de multid&otilde;es de &aacute;vidos leitores. Eles tamb&eacute;m viram no livro um ajuste de contas com os malfeitos, disparates e hipocrisias praticados pelos altos oficiais das for&ccedil;as armadas no governo do Brasil, desde 1964. Viv&iacute;amos ent&atilde;o os anos de poderoso renascimento do movimento sindical e social no Brasil.<br /> <br /> Imediatamente atacado pela grande imprensa, por escribas e intelectuais a servi&ccedil;o da ditadura, Genoc&iacute;dio americano realizou enorme estrago nas interpreta&ccedil;&otilde;es monop&oacute;licas e monol&iacute;ticas da historiografia nacional sobre a grande guerra sul-americana, influenciando fortemente os manuais escolares, o ensino universit&aacute;rio, a pr&oacute;pria produ&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica. Por&eacute;m, n&atilde;o abriu no pa&iacute;s ciclo de investiga&ccedil;&otilde;es revisionistas que poderia apoiar-se na importante bibliografia cr&iacute;tica pratina.<br /> <br /> Quando do lan&ccedil;amento de Genoc&iacute;dio americano, constru&iacute;a-se a represa Itaipu, a partir de acordos com um Paraguai s&uacute;cubo do Brasil, desde aquele conflito. N&atilde;o apenas por isso, a mem&oacute;ria da guerra era praticamente uma quest&atilde;o de Estado no Brasil. A dimens&atilde;o pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica de sua import&acirc;ncia se expressa no fato de que praticamente todos os patronos atuais das for&ccedil;as armadas brasileiras consagraram-se no Paraguai, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o, &eacute; claro, dos da Aeron&aacute;utica. N&atilde;o apenas por isso, foi lan&ccedil;ado amplo movimento historiogr&aacute;fico de desconstru&ccedil;&atilde;o e deslegitima&ccedil;&atilde;o daquela leitura her&eacute;tica dos sucessos.<br /> <br /> Um impressionante fogo de artilharia foi aberto contra as defesas mais fr&aacute;geis do livro &iacute;mpio, com destaque para a tese de guerra livrada pelo Imp&eacute;rio do Brasil, pela Argentina mitrista e pelo Uruguai florista por conta do poderoso imperialismo brit&acirc;nico. Posi&ccedil;&atilde;o defendida por alguns trabalhos platinos e internacionais, havia muito impugnada pelos autores revisionistas mais argutos e rigorosos. Entre outros sen&otilde;es, foram apontados m&uacute;ltiplos hiatos hist&oacute;ricos e propostas apolog&eacute;ticas desmedidas sobre o Paraguai e Solano L&oacute;pez, algumas avan&ccedil;adas j&aacute; antes, durante e imediatamente ap&oacute;s a guerra.<br /> <br /> Vinte anos mais tarde, sob pleno dom&iacute;nio da mar&eacute; neoliberal que avassalou o mundo, Genoc&iacute;dio americano encontrava-se j&aacute; no mais profundo dos infernos da historiografia nacional, para eterno olvido e uma mais f&aacute;cil educa&ccedil;&atilde;o das novas gera&ccedil;&otilde;es sob os preceitos de verdadeira restaura&ccedil;&atilde;o da velha historiografia nacional-patri&oacute;tica, apenas requintada por historiadores profissionais, &agrave; sobra das benesses propiciadas pelo Estado.<br /> <br /> Genoc&iacute;dio americano: a guerra do Paraguai, de J.J. Chiavenato, praticamente deixou de existir, totalmente rejeitado em suas teses de vieses revisionistas e como sugest&atilde;o pioneira de novos temas, enfoques e fontes no Brasil. O seu inesperado sucesso foi apresentado como simples produto de tempos, de historiadores e de historiografia terceiro-mundista, esquerdista, marxista, superados pela nova historiografia da guerra do Paraguai, que se pretendeu despida de qualquer ressabio ideol&oacute;gico, ao retomar direta e indiretamente a defesa das gl&oacute;rias p&aacute;trias do Brasil e a justificativa de sua a&ccedil;&atilde;o no Prata.<br /> <br /> ***<br /> <br /> A revis&atilde;o da revis&atilde;o: o Genoc&iacute;dio americano, de J.J. Chiavenato, foi apresentado por Silv&acirc;nia de Queiroz como disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, em 23 de setembro de 2010, no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Hist&oacute;ria da UPF, tendo como banca examinadora a Dra. Carla Luciana Silva (Unioeste), a Dra. Ana Luiza Setti Reckziegel (UPF) e o Dr. M&aacute;rio Maestri, orientador, (UPF).<br /> <br /> Nesse seu estudo, Silv&acirc;nia de Queiroz volta-se com compet&ecirc;ncia sobre o livro maldito, procurando desvelar, com os instrumentos da epistemologia hist&oacute;rica, as raz&otilde;es profundas de seu sucesso, por al&eacute;m de seus importantes hiatos, trope&ccedil;os e limita&ccedil;&otilde;es factuais, hist&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos. Para tal, delineia o quadro geral do Prata, do Paraguai, da guerra e da historiografia platina, para melhor empreender o sentido da apresenta&ccedil;&atilde;o do conflito no Brasil, como narrativa historiogr&aacute;fica nacional-patri&oacute;tica e a recep&ccedil;&atilde;o da cr&iacute;tica a ela posta por Genoc&iacute;dio americano.<br /> <br /> Silv&acirc;nia de Queiroz aborda o quadro geral no qual surgiu e foi consagrada a reportagem hist&oacute;ria de J.J. Quiavenatto. Historia tamb&eacute;m a recep&ccedil;&atilde;o e combate do livro pelos ide&oacute;logos do Estado ditatorial, assim como as raz&otilde;es e muitos dos caminhos de seu estrondoso sucesso, com o qual o autor jamais sonhara. Por al&eacute;m de seus indiscut&iacute;veis trope&ccedil;os historiogr&aacute;ficos, aborda Genoc&iacute;dio americano como fen&ocirc;meno cultural, pol&iacute;tico e social, com enorme repercuss&atilde;o, que a autora estuda nos manuais escolares e entre as gera&ccedil;&otilde;es atuais de historiadores, ent&atilde;o jovens professores e estudantes quando do lan&ccedil;amento do livro.<br /> <br /> Ao analisar os indiscut&iacute;veis hiatos do ensaio, produzido por jornalista sem forma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica profissional, no contexto do olvido quase completo da guerra pela historiografia acad&ecirc;mica da &eacute;poca, aponta para os importantes avan&ccedil;os por ele sugeridos, ao introduzir pioneiramente no Brasil, em forma singularmente tardia, a proposta de abandono das narrativas centradas na descri&ccedil;&atilde;o apolog&eacute;tica das grandes batalhas e feitos, em prol da an&aacute;lise do quadro geral diplom&aacute;tico, pol&iacute;tico, social etc. do conflito.<br /> <br /> Por al&eacute;m das propostas ideol&oacute;gicas, Silv&acirc;nia de Queiroz restabelece o importante e inarred&aacute;vel papel de Genoc&iacute;dio americano: a guerra do Paraguai, de J.J. Quiavento, nos seus indiscut&iacute;veis limites, na cultura e na historiografia brasileira. Ainda que por linhas tortas.<br /> <br /> QUEIROZ, Silv&acirc;nia. Revisando a Revis&atilde;o: Genoc&iacute;dio americano: a Guerra do Paraguai de J.J. Chiavenato. Porto Alegre: FCM Editora, 2014. 374 pp. www.clubedeautores.com.br/book/163153--Revisando_a_Revisao_Genocidio_americano_a_Guerra_do_Paraguai#.U0bSY1cq22V<br /> <br /> T&iacute;tulo: <b>Revisando a Revis&atilde;o - Genoc&iacute;dio americano: a Guerra do Paraguai</b><br /> Autora: Silv&acirc;nia de Queir&oacute;z<br /> Editora: FCM<br /> Ano: 2014<br /> P&aacute;ginas: 368<br /> Pre&ccedil;o: R$ 32,00<br /> <br /> Por M&aacute;rio Maestri. Historiador e orientador do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Hist&oacute;ria UPF-RS. E-mail: maestri(0)via-rs.net