“Y a mucha honra, María la del Barrio soy”, quem não se lembra da música da novela Maria do Bairro, reprisada milhares de vezes pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) e agora disponível nas plataformas de streaming? Assim começo a reflexão sobre a eleição norte-americana que tem enredo de novela mexicana.

© Frame/Vídeo YouTube/Reprodução/iclnoticias.com.br/
Os personagens da trama são emblemáticos, caóticos, caricatos. Joe Biden e Donald Trump como protagonistas, provavelmente farão um duelo que já demonstra a total fragilidade e um esgaçamento da democracia dos Estados Unidos da América, um modelo (ainda) para uma grande parte do mundo ocidental.
O presidente Biden tem sido questionado por sua senilidade, sobretudo pelo seu tropeço no primeiro debate eleitoral que deixaram dúvidas sobre sua saúde e sua condição de continuar governando o país por mais quatro anos. Biden diz que é o candidato mais qualificado para a presidência, mas seus eleitores estão temorosos e sugerem sua desistência enquanto há tempo para fazer a troca de candidatura democrata.
Trump, em melhor forma e disposição que Biden, representa a volta da extrema-direita, do negacionismo científico que foi a tônica da pandemia de Covid 19, levando milhares de norte-americanos à morte. O ex-presidente, também, foi condenado por fraude ao comprar silêncio de atriz pornô e acusado por conspirar para tentar reverter sua derrota para Biden nas eleições de 2020, o que resultou no motim do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Trump ainda responde por vários outros processos.
Temos então um candidato desacreditado pelo seu eleitor e aliados, o presidente Biden e um candidato envolvido em diversos processos criminais e já condenado em um. Seria um roteiro dramático de “mocinho” (Biden) e “vilão” (Trump) típico da teledramaturgia? Claro que não, pois na política esses papéis se invertem, o tempo todo.
Pesa na conta humanitária do presidente Biden, o seu apoio ao governo de Israel que promove um genocídio contra o povo palestino numa guerra que mata civis, sobretudo crianças, pesa contra Biden, o envolvimento na guerra Ucrânia X Rússia, pois o sentido desse conflito é a ampliação do poder dos EUA na região através da OTAN, pesa, também, a vergonhosa saída norte-americana do Afeganistão após vinte anos de ocupação colonial naquela região. A política internacional dos EUA é um fracasso completo.
A vitória de Trump interessa muito aos adversários externos de Biden, sobretudo, a Rússia e China. Com Trump no poder, o desmantelamento do que resta de democracia burguesa liberal norte-americana será mais rápido, pois a extrema-direita é antidemocracia e flerta muito com a ideia de capitalismo Estado. Esse tipo de governabilidade, ressalvando as diferenças entre os modelos de Estado russo, chinês e estadunidense, promove uma aproximação entre esses atores políticos e fortalece, sobremaneira, o eixo euroasiático.
Vladimir Putin (Presidente da Rússia) e Xi Jinping (Presidente da República Popular da China) apostam suas fichas na eleição de Trump e não interessa para essas potências se Trump é representante da extrema-direita no mundo, o que interessa para China e Rússia é o pragmatismo para fortalecer um outro bloco de poder que já ameaça o eixo EUA-Europa desde o início do século XXI.
Enquanto no Brasil e, em partes da Europa (França, Inglaterra, Alemanha), a maioria da esquerda prefere Joe Biden em detrimento de Trump por esse viés antidemocrático e neofacista, Rússia e China acompanham as movimentações com uma certa atenção para Trump. É bom ressaltar que a esquerda europeia, principalmente a esquerda francesa, apoia a Ucrânia e se posiciona contra a Rússia na guerra entre esses dois países. Enquanto isso, a extrema direita é contra a Ucrânia e prefere a Rússia. Do ponto de vista ideológico deveria ser o contrário, mas como dia Cazuza; “ideologia, eu quero uma pra viver”.
É lógico que a vitória de Trump fortalece os setores de extrema-direita aqui no Brasil e isso pode influênciar nas eleições de 2026, mas é preciso pensar sobre o papel da ou das esquerdas atualmente aqui. Um outro texto pode refletir sobre essa questão.
Sigamos conversando sobre a eleição nos EUA que se transformou numa novela mexicana com drama até o fim. Os próximos capítulos, antes de chegar o dia da votação serão de muita tensão, pois muitos esperam a desistência de Biden para que uma outra ou um outro candidato democrata possa assumir a campanha e manter o poder desse grupo político ainda, com seus dias contados, na maior potência político-bélico-econômica do planeta.
Teremos dias de suspense dignos daqueles momentos de reviravoltas na teledramaturgia. Vai desistir? Não vai desistir? Kamala Harris (Vice-presidenta) será a escolhida dos democratas para substituir Biden? Trump surfa com tranquilidade nas pesquisas? Cenas dos próximos capítulos de uma eleição que mexe com o mundo.
Por
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. Professor. E-mail: ivanvisk@gmail.com