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DIA NACIONAL DO CERRADO – 11 de setembro de 2024

11 de setembro de 2024 às 18:47

meio ambiente/cerrado
O que temos para comemorar? Hoje quando fui assistir/ler as manchetes dos principais jornais brasileiros me deparei com as seguintes notícias: 200 municípios estão com fortes queimadas. A maioria da região do Cerrado se encontra com a umidade relativa do ar abaixo do deserto do Saara (7% umidade). Segundo a Secretaria de Saúde da cidade de São Paulo, desde o mês de agosto até a primeira semana de setembro, esta cidade de São Paulo registrou 1.523 casos de síndrome respiratória aguda grave (Srag), e 76 óbitos decorrentes da doença.
 

Reprodução/pt.linkedin.com/
 
Você está se sentindo bem? Como estão as condições atmosféricas em seu município? E, nas cidades do MATOPIBA? Se pararmos para refletir, será que temos o que comemorar neste dia 11 de setembro de 2024?
 
As pesquisas apontam que a região do Cerrado pode ficar 3,5o C  mais quente e 10% mais seco , que o desmatamento compromete o processo de fotossíntese da vegetação nativa do Cerrado, bem como coloca em risco à nossa saúde e os sonhados créditos de carbônio nas bolsas de valores.
 
Infelizmente, foi feita uma escolha na geopolítica econômica, ao eleger o Cerrado como território produtor de commodities de grãos. Todavia, será que nos falta consciência ambiental para perceber que não dá para transformar o Brasil Central em deserto? É preciso com urgência, mesmo no capitalismo tardio brasileiro, repensar as nossas pegadas ambientais.
 
Presenciamos, nas últimas décadas do século XXI, a supressão de milhares de hectares de cerrado nativo, junto a diminuição da sua biodiversidade, a redução da evapotranspiração, a diminuição de cerca de 30% dos corpos hídricos (MapBiomas), bem como o testemunho do fim de lagos, lagoas, riachos e rios.
 
Geograficamente, preservar e conservar o “domínio morfoclimático” do Cerrado é fazer uma das geopolíticas ambientais mais importantes do século XXI: preservar a água potável superficial e subterrânea. Aqui temos de lembrar a nossa população e, principalmente, os políticos que, sem os bens naturais não há o desenvolvimento.
 
Diante dessa tragédia antrópica e das mudanças climáticas, potencializadas pela ganância humana no mundo globalizado, para nós brasileiros é preciso gritar “DESMATAMENTO ZERO JÁ”!
 
Dados do Ministério do Meio Ambiente apontam para o aumento do desmatamento do Cerrado em 14,6%, em 2024. Os desmatamentos dos últimos anos apontam para uma destruição inimaginável mesmo para aqueles (as) que conhecem e sabem que é possível pensar em outra economia política para o território brasileiro. 
 
Recentemente, os municípios do MATOPIBA e, em especial, municípios baianos estão na vanguarda do desmatamento, do número de queimadas, do aumento dos conflitos socioambientais do campo. Infelizmente, estão no front da fronteira agrícola reproduzindo os mesmos erros do século XIX e XX. Porém, agora com uma capacidade tecnológica de apropriação desigual da natureza muito ampliada.
 
O IMATERRA, lançou recentemente o livro “Desmatamento, e apropriação da água no Oeste da Bahia: uma política de estado” que concentra dados importantes para nos ajudar a refletir sobre as mentiras, a falta de honestidade e a visões míopes em relação ao desmatamento ilegal e a liberação de retirada de grandes quantidades de água superficiais e subterrâneas.
 
Segundo o Imaterra, “80% da área total autorizada para desmatamento em todo o estado da Bahia, que corresponde a 798.428 hectares, foram para supressões localizadas nas bacias hidrográficas dos rios Grande (535.518 hectares, com um total de 706 autorizações) e Corrente (262.910 hectares, com um total de 345 autorizações), que estão sob o domínio do bioma Cerrado, na região Oeste do estado da Bahia”. (Grifo nosso).
 
Será que temos o que comemorar? Qual já é o preço cobrado por essa pegada ambiental aqui no Oeste da Bahia? Qual o preço para o Estado da Bahia? Para o Brasil? Qual será o preço dessa destruição no futuro próximo? Todavia, parece que o desmatamento não é devido à falta de áreas abertas e impróprias para a agricultura. Pelo contrário, há muitas áreas de pastagens degradadas, que deveriam ser recuperadas e utilizadas. 
 
Você já parou para pensar que mentiram para nós quando diziam que o Novo Código Florestal iria ajudar a reduzir o desmatamento e melhorar a gestão ambiental? Será que os fazendeiros (as), os empresários (as) agrícolas, especuladores (as) financeiros(as) de commodities agrícolas, os técnicos não estão preocupados com o risco que esse modelo econômico está sendo inserido, com a destruição das paisagens nativas do Cerrado, da Amazônia, da Caatinga, do Pantanal, etc. 
 
Enfim, gostaria de ter acordado hoje com outras manchetes na mídia e em nossos jornais de grande circulação. Gostaria de ter mais colegas de trabalho engajados em projetos voltados para resiliências climáticas e preservação e conservação do Cerrado. Adoraria ter mais políticos (inclusive candidatos a vereadores mais envolvidos com a pauta ambiental) e que não embarcassem mais no capitalismo de tolo.
 
Todavia, sabemos que há muitas ações que buscam as resiliências ambientais, econômicas e culturais. O que nos preocupa é a ignorância e a ganância humana em relação a apropriação dos bens naturais. Acredito pelos meus conhecimentos geográficos e leitura atenta sobre as questões ambientais, que já não são mais pautas apenas dos chamados “ambientalistas xiitas”, mas, elas são e precisam ser pautas constantes das políticas públicas, do setor financeiro, também, todos os dias pela Educação. Afinal, com a redução drástica da biodiversidade (incluímos nós seres humanos) talvez não terá mais as condições existenciais básicas para respirar, hidratar e alimentar, com alimentos saudáveis, nos próximos dias e anos! 
 
Oxalá, nos abençoe! Chega de verniz verde no manto neoliberal do capitalismo tardio brasileiro e vamos buscar ações concretas para o nosso Cerrado! MORATÓRIA já! Desmatamento zero para ontem!  
 
Por Valney Dias Rigonato, doutor em Geografia pelo IESA/UFG. Professor do Curso de Geografia e do PPGE da Universidade Federal do Oeste da Bahia, Campus de Barreiras. Diretor da Associação dos Geógrafos Brasileiros Seção Santa Inês, BA. Membro da Academia Barreirense de Letras.