O Carnaval da Bahia não é apenas festa: é pulsação. É território simbólico onde a diversidade se encontra, se mistura e se afirma. No circuito, os ritmos não competem — dialogam. O axé abraça o pagode, que encontra o samba, que reverencia o ijexá, que se entrelaça ao reggae, ao arrocha, ao trap. Cada batida carrega um pedaço de chão, uma memória coletiva, uma identidade que insiste em existir.

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Há algo de profundamente político e profundamente poético nisso tudo.
As vozes do gueto, da periferia, da favela ecoam nos paredões e nos trios. Não são apenas refrões que grudam, são denúncias, são narrativas, são testemunhos de quem vive além dos espelhos reluzentes dos prédios das áreas nobres. São vidas que pedem e merecem ser vistas, sentidas e respeitadas. O Carnaval escancara essas presenças. Amplifica o que muitas vezes é silenciado.
E quando os blocos afros tomam a avenida, a ancestralidade se ergue com majestade. Os tambores não tocam apenas música: contam história. As letras densas e reflexivas são um banho de memória, resistência e consciência. Ali, África não é passado distante, é fundamento, é raiz, é futuro. É identidade que dança.
Tem o nativo.
Tem o turista.
Tem quem vem para conhecer.
Tem quem vem para se reconhecer.
A Bahia acolhe a todos como uma mãe de braços largos — dessas que ensinam que caber é diferente de se apagar. Aqui, cada um pode ser quem é, sem deixar de pertencer.
Como professora, muitas vezes mantive certa distância de alguns ritmos. Especialmente quando percebia letras com cunho depreciativo, sobretudo em relação às mulheres. Esse incômodo me fez afastar. E o incômodo é legítimo. Mas o afastamento talvez não seja o melhor caminho.
Porque nossos estudantes escutam, dançam, vivem essas músicas — gostemos ou não. Ignorá-las é ignorar parte do universo simbólico que os forma. Talvez o grande lance seja outro: compreender. Investigar etimologicamente, socialmente, culturalmente. Perguntar: o que essa letra revela? Que contexto a produz? Que dores, que desejos, que disputas de sentido estão ali?
Educar também é mediar cultura. É problematizar sem demonizar. É reconhecer contradições sem negar pertencimentos.
Carnaval é estar junto.
É quebra de barreiras.
É suspensão de hierarquias, ainda que por instantes.
Carnaval é arte.
E a arte sublima. Inquieta percepções. Desconstrói crenças. Amplia horizontes. Transcende o imediato. A arte nos obriga a olhar de novo, a sentir diferente, a pensar mais fundo.
E a Bahia faz isso como poucos lugares no mundo.
Entre trios e tambores, entre críticas e celebrações, entre suor e brilho, o que vibra é a vida em sua forma mais intensa. Contraditória, plural, potente.
Deus me livre não ser baiana!
Por
Ananda Lima, confreira da ABL/Barreiras, Bahia
@anandaescritora