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A Autocracia Trump e a Crise Teocrática no Irã: Cenários de Uma Desordem Mundial

03 de março de 2026 às 18:38

pauta livre/analista político
Em 28 de fevereiro de 2026, uma ofensiva militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel culminou na morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, confirmado pela mídia estatal iraniana após o ataque. Essa ação representa um dos episódios mais dramáticos da política externa norte-americana em décadas, com impactos globais profundos.
 

© Reprodução/ulme.chat/
 
O uso do termo “autocracia” para caracterizar o governo de Donald Trump não é apenas retórico: nos meses anteriores, decisões de grande impacto internacional foram tomadas sem claras autorizações do Congresso dos EUA, ampliando a percepção de uma condução presidencial cada vez mais unilateral. Essa postura tem gerado críticas tanto internas quanto externas sobre o respeito às normas constitucionais dos Estados Unidos e ao direito internacional.
 
Sobre as motivações e dinâmicas do conflito, oficialmente, Washington e Tel Aviv justificaram a ofensiva alegando ameaça relacionada ao programa nuclear iraniano e à segurança de aliados históricos. Na prática, a ação parece combinar fatores estratégicos, econômicos e geopolíticos:
 
O controle sobre rotas e fluxos energéticos no Oriente Médio; a contenção da influência regional de Teerã; a pressão sobre países que dependem do petróleo iraniano, como China e outras potências asiáticas; a busca por ganhos políticos internos, diante de uma base eleitoral fraturada nos EUA, são questões que estão em jogo nessa guerra.
 
A morte de Ali Khamenei, que liderou a República Islâmica desde 1989, abre uma fase extremamente incerta na política interna do Irã. O país já vinha enfrentando protestos massivos e intensos desde 2025, impulsionados por uma grave crise econômica e pela queda do valor da moeda nacional, que evoluíram para demandas por mudanças estruturais no regime.
 
Após a confirmação oficial da morte de Khamenei, um Conselho de Liderança Interino foi rapidamente formado, composto por figuras como Ayatollah Alireza Arafi, o presidente Masoud Pezeshkian, o chefe do Judiciário e outras autoridades, com o objetivo de garantir a continuidade do Estado até a nomeação de um novo líder supremo pela Assembleia de Especialistas.
 
Esse processo de transição é delicado e deve ser acompanhado por intensas disputas entre diferentes facções dentro do regime teocrático — incluindo setores do clero, da Guarda Revolucionária e de políticos pragmáticos. A nomeação do sucessor pode redefinir, para melhor ou pior, a trajetória interna e externa do Irã.
 
Desde os ataques iniciais, o conflito se expandiu rapidamente pelo Oriente Médio, mísseis e drones iranianos foram lançados em direção a Israel e bases americanas na região; países do Golfo e outras nações próximas se envolveram; a passagem pelo estratégico Estreito de Ormuz ficou ameaçada, levando a temores de disrupção no fornecimento global de petróleo.
 
A reação global tem sido ampla. Países do Sul Global, incluindo Brasil, África do Sul, Índia, Turquia e nações do Sudeste Asiático, criticaram duramente a ofensiva, qualificando-a como violação do direito internacional e sinal de um “imperialismo renovado”. Esses países apontam que a falta de aprovação do Conselho de Segurança da ONU e a ausência de autorização legislativa nos EUA reforçam a ideia de unilateralismo e desrespeito a normas coletivas, o que caracteriza Trump como um autocrata. 
 
As implicações dessa nova guerra são profundas: preços do petróleo e dos combustíveis dispararam, afetando mercados e inflacionando novamente economias já fragilizadas; mercados financeiros globais sofreram volatilidade significativa, à medida que investidores precificam risco geopolítico elevado.
 
Estamos diante de uma fase crítica na história das relações internacionais. A estratégia adotada pelos Estados Unidos sob o governo do autocrata Donald Trump — combinando ação militar de grande escala com ambições hegemônicas — pode ter efeitos de longo prazo muito mais danosos para a ordem mundial do que qualquer ganho pontual. Intervenções sem respaldo multilateral tendem a enfraquecer, e não a reforçar, o papel dos EUA na governança global.
 
Ao mesmo tempo, a teocracia iraniana — apesar de profundamente abalada — ainda não se desfez. O futuro imediato dependerá da evolução do conflito, da capacidade de resistência das estruturas estatais iranianas e das pressões internas por mudança.
 
No fim das contas, quem mais sofre nesses confrontos são os povos comuns dos países envolvidos, frequentemente usados como instrumentos de disputas geopolíticas e econômicas maiores.
 

Por Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Professor de Filosofia