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Desmate no Marinheiro acende alerta em área sob liminar no Alto Vale do Rio Preto

11 de março de 2026 às 17:01

meio ambiente/desmatamento
Operação que flagrou cerca de 600 hectares de supressão ilegal em Formosa do Rio Preto está atingindo trecho sensível da região da Cachoeira, no Marinheiro, dentro do território sob disputa histórica entre comunidades tradicionais e o Condomínio Estrondo.
 
A operação conjunta da Companhia Independente de Polícia de Proteção Ambiental (CIPPA/Lençóis), do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA) e da Secretaria de Meio Ambiente municipal, divulgada em 5 de março de 2026, revelou um desmatamento ilegal, já consolidado, de aproximadamente 600 hectares em Formosa do Rio Preto, no oeste baiano. Na área fiscalizada, informada publicamente como situada na localidade hoje conhecida como Associação dos Moradores dos Gerais, os agentes encontraram três tratores, um caminhão com tambores de óleo diesel, cilindro de oxigênio, gerador de energia, e registraram a ocorrência na Delegacia Territorial do município. Nenhuma pessoa foi localizada no momento da ação.
 
Operação flagra cerca de 600 hectares de supressão ilegal © Divulgação
 
O que mais preocupa, porém, não é apenas a extensão da área suprimida. Os mapas e imagens encaminhados à reportagem indicam que o foco mais sensível do episódio está na região da Cachoeira do Rio Preto, mais precisamente no Marinheiro, divisa com a antiga localidade da Pedra de Fogo, onde por muitos anos, uma guarita do Condomínio Estrondo controlava uma área de Reserva Legal do complexo. O desmate encontrado aponta, não  apenas, mais um flagrante de infração ambiental no oeste baiano, ele atinge o coração de uma disputa fundiária e territorial histórica no Vale do Rio Preto.
 
Esse não é qualquer pedaço de Cerrado. O Vale do Rio Preto em questão é descrito na documentação do conflito como território tradicional de uso comum, em veredas, águas e fundos de vale, onde comunidades geraizeiras vem desenvolvendo, por décadas, agricultura familiar, extrativismo, criação de animais e circulação em áreas compartilhadas. O conflito emerge com a consolidação da agricultura sobre as chapadas, com o avanço do desmatamento e ocupação de áreas usadas tradicionalmente para criação de gado na solta. No plano judicial, o conflito avançou até a emissão de liminar que registra o reconhecimento de posse tradicional ao longo do vale do Rio Preto, sobre 43 mil hectares, em 2017, medida que foi cumprida em 2019, no contexto de um litígio prolongado ainda infindo.
 
Trecho afetado se encontra dentro do perímetro de comunidades tradicionais/Divulgação
 
É justamente por isso que o desmate dentro da área da liminar é tão grave. A questão que precisa ser respondida, com urgência, não é só quem derrubou a vegetação, mas em que base a licença ambiental de supressão foi feita, se é que existe. O trecho afetado se encontra dentro do perímetro coletivo reconhecido judicialmente para as comunidades tradicionais do Rio Preto, então será indispensável esclarecer se houve destacamento regular da gleba, uma vez que a matrícula que poderia amparar um eventual domínio individual, ou seja, quem responde pelo cadastro e por eventual pedido de autorização ambiental ainda se encontra com o Condomínio Estrondo, ou tal ação foi baseada na posse efetiva judicialmente do local, uma vez que tais transferências de propriedade ainda não foram legalmente oficializadas no Estado da Bahia. Outra pergunta é como e por quê uma área tão sensível foi convertida em frente ativa de desmatamento, e com a utilização de uma técnica proibida de desmatamento com o uso de correntão e sem as condicionantes de mitigação, como resgate de fauna. Embora existam rumores de comercialização por parte de membros das comunidades, até aqui, a divulgação pública da operação não identificou os responsáveis, nem pela compra e venda, se houve, nem pelo crime ambiental pelo que, em sua totalidade, devem responder tanto os vendedores quantos os compradores da área em desmatamento.
 
Do flagrante ambiental à pergunta fundiária: quem autorizou abrir o Marinheiro?
 
Essa pergunta remete à própria formação territorial do conflito. A documentação já sistematizada sobre a Fazenda Estrondo, remonta a áreas adquiridas em 1981, posteriormente desdobrada em dezenas de proprietários e centenas de matrículas. O mesmo conjunto documental registra, que por 1992, as chapadas entraram em produção agrícola e as áreas de Reserva Legal foram localizadas sobre os vales dos rios Riachão, Ouro e Preto, sobrepondo-se em algumas porções exatamente onde se concentram residências, territorialidades e usos tradicionais, no vale do Rio Preto. Em outras palavras: parte do vale do rio Preto foi transformado, ao mesmo tempo, em espaço de vida, em prova ambiental e em peça de uma engenharia fundiária complexa.

Google Maps indicando a área da Liminar em azul e área da Comunidade Marinheiro em verde localizada na coordenada UTM 23L 396855.00 m E 8772698.00 m S/Reprodução/Google/Divulgação
 
É nesse ponto que o desmate no Marinheiro abre um precedente perigoso. Se um trecho inserido ou contíguo à área sob liminar puder ser apropriado, negociado ou convertido sem resposta rápida do Estado, todo o equilíbrio precário que manteve o cerrado no vale do rio Preto em de pé pode ruir. Segundo estudos científicos consultados, a permanência relativa do Cerrado no fundo de vale do rio Preto seria resultado não somente do planejamento prévio empresarial ou de quaisquer ações governamentais, mas do atrito entre a expansão produtiva, a regulação ambiental e a resistência territorial. O que hoje está em jogo é saber se esse mecanismo histórico de contenção chegou ao limite, antes mesmo que os acordos judiciais sejam finalizados definitivamente.
 

Drone 01, no sentido da Comunidade Marinheiro (margem direita do rio Preto) em relação a serra; drone 02, no sentido leste x oeste, obseva-se o correntão/Reprodução/Google/Divulgação

Derrubada de vegetação nativa mexer num contínuo socioecológico que conecta veredas, nascentes, áreas de recarga e corredores de vida/Divulgação
 
No Vale do Rio Preto, derrubar vegetação nativa não significa apenas abrir área. Significa mexer num contínuo socioecológico que conecta veredas, nascentes, áreas de recarga e corredores de vida. A documentação sobre a região destaca que os chapadões participam da recarga do Aquífero Urucuia e que o sistema chapada-vale sustenta a manutenção hídrica regional. Em termos simples: atingir o vale é atingir a base ecológica que ainda amarra água, solo, fauna, flora e modos de vida tradicionais no contexto da sub bacia hidrológica do Rio Preto.
 
A urgência, portanto, é dupla. Ambiental, porque 600 hectares não são detalhe nem acidente de pequena monta, este volume de área continua aumentando, fontes indicam que mesmo após a fiscalização novas áreas estão sendo desmatadas. E institucional, porque a apuração precisa alcançar a cadeia completa do fato: localização precisa da área, titularidade, CAR, licenciamento, eventual autorização de supressão, maquinário empregado, financiadores, beneficiários e conexão com a malha fundiária que historicamente reorganizou o vale. Sem isso, o episódio corre o risco de ser tratado como infração isolada, quando pode representar a ruptura de uma proteção territorial construída a duras penas, em décadas de conflito, numa área que é notadamente a última grande área verde contínua do oeste da Bahia.
 
O que é o desmatamento com correntão

Correntão trabalhando no sentido do rio a serra, respeitando a cerca de divisa, que parte da Guarita desativada do pedra de fogo até a serra/Divulgação
 
O correntão é uma técnica de supressão rápida em que dois tratores arrastam entre si uma corrente pesada para derrubar a vegetação nativa em larga escala. O Ibama descreve esse método como mecanismo de destruição veloz da cobertura vegetal e registra que ele provoca danos graves à fauna silvestre porque dificulta ou impede a fuga dos animais. Calcula-se que, com o solo úmido como está, o método pode derrubar até 10 hectares de cerrado por hora.
 
Correntão é uma técnica de supressão rápida em que dois tratores que arrastam entre si uma corrente pesada para derrubar a vegetação nativa em larga escala/Divulgação
 
Os efeitos vão além da derrubada imediata. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o desmatamento compromete a biodiversidade, destrói habitats, agrava a escassez hídrica, provoca erosão e reduz a fertilidade do solo. Em material da Embrapa, a supressão vegetal no Cerrado também aparece associada à redução da infiltração da água e da recarga de aquíferos. Num vale como o do Rio Preto, isso significa perda de cobertura, fragmentação de corredores ecológicos, stress sobre a fauna, empobrecimento florístico e maior pressão sobre nascentes, veredas e cursos d’água. Definitivamente nada do que precisamos nestes tempos de extremos climáticos.
 
Da Redação
Com informações da Revista Formosa, da sec de MA do povo das fazendas, do Sema, do Inema, do MP/BA e de outras fontes