No início do século 20, o médico e pesquisador brasileiro Vital Brazil revolucionou a medicina ao desenvolver o primeiro antídoto específico contra venenos de diferentes espécies de serpentes, rompendo com a prática de utilizar soros genéricos e ineficazes. Seu trabalho pioneiro no Instituto Butantan, em São Paulo, teve impacto imediato no Brasil e no mundo, com redução drástica na mortalidade por acidentes ofídicos em diversos países.

© Reprodução/Agência Einstein
Produção regional avança ao explorar a diversidade populacional e desenvolver soluções para problemas presentes em seus próprios territórios |
A descoberta ainda abriu caminho para pesquisas sobre imunidade, produção de vacinas e terapias baseadas em anticorpos. E esse talvez seja um dos primeiros exemplos de como a América Latina também pode ser o epicentro de soluções para desafios globais.
Desde a época da descoberta brasileira, a ciência avançou no mundo inteiro — mas não de maneira simétrica. A quantidade de pesquisadores nos países laitno-americanos aumentou em 44% de 2014 a 2023. Isso significa que saltou de 297 mil para aproximadamente 429 mil pessoas, de acordo com o
relatório El Estado de la Ciencia 2025, elaborado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Na prática, a cada mil trabalhadores na região, pelo menos um contribui com a produção de ciência.
Em comparação a China, Estados Unidos e União Europeia, esses números ainda são relativamente baixos. Na área da saúde, por exemplo, os países latinos e caribenhos respondem por apenas 0,8% de toda a literatura divulgada entre 1980 e 2024 a respeito dos cuidados com a atenção primária, segundo estudo publicado em 2025 na
revista Atención Primária.
Contudo, não significa que as pesquisas por aqui sejam menos relevantes. “A ciência médica é bem forte na América Latina. Mantemos bons recursos humanos, especialmente graças às universidades públicas, que oferecem formação robusta e qualificada a médicos, docentes e biotecnólogos”, destaca a bióloga Juliana Cassataro, pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), na Argentina.
No Brasil, isso é traduzido em um forte investimento nas pesquisas voltadas ao câncer de mama e de colo do útero, com programas de rastreamento e prevenção que buscam reduzir a mortalidade feminina. No México, por sua vez, parte significativa da produção científica é concentrada em obesidade e transtornos nutricionais, refletindo a preocupação com o impacto da má alimentação e do sobrepeso sobre a população. Já a Colômbia tem se destacado pela integração entre universidades e políticas nacionais de saúde, criando centros comunitários e reforçando a formação de profissionais voltados à atenção primária.
Segundo artigo publicado em 2018 na
revista Scientometrics, a aposta em projetos dessa natureza por profissionais da América Latina evidencia uma “
especialização inteligente” voltada aos desafios locais. Para os autores, investir no estudo de tópicos que dialoguem com as necessidades de saúde regionais, mesmo que não sejam prioridade para o resto do mundo, pode ser justamente o caminho para ampliar a visibilidade da produção latina.
Contribuições regionais à saúde mundial
Um dos diferenciais da América Latina é sua heterogeneidade. “A diversidade genética, comportamental e ambiental da região nos permite acessar recursos únicos, e seu estudo pode contribuir para a construção de uma ciência de impacto global”, observa o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor de Pesquisa do Einstein Hospital Israelita. “Pesquisas locais são fundamentais, pois, se não as fizermos, ninguém mais fará. Mas, quando falamos de impacto mundial, a diversidade ganha ainda mais valor.”
De acordo com um estudo publicado em 2016 na
revista Nature, cerca de 81% dos participantes de pesquisas com marcadores genéticos de doenças são de ascendência europeia, portanto, carregam um forte viés populacional em seus resultados. A sub-representação de outros grupos étnicos e raciais causa um desequilíbrio que limita a eficácia e a equidade dos avanços da medicina de precisão. “
Devemos focar nossos esforços para que a região não seja apenas um lugar de coleta, mas, sim, um espaço que contribua ativamente com a ciência global”, avalia Rizzo.
O tema foi debatido durante o evento Vozes da Ciência Latino-americana, promovido pelo Einstein no dia de ontem, quarta-feira (6), em São Paulo. “O Brasil tem uma população multiétnica que falta nos grandes estudos originados na Europa e nos Estados Unidos, onde a maioria são brancos e do Hemisfério Norte”, afirmou no encontro o médico cardiologista Peter Libby, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. “Nosso principal ativo somos nós mesmos, nossa população diversa, plural e enorme”, disse o médico Pedro Lemos, diretor de Cardiologia do Einstein. E as oportunidades vão além das fronteiras brasileiras.
Inteligência artificial é um caminho
As soluções baseadas em inteligência artificial (IA) para a saúde são uma possibilidade de exploração compartilhada na região. Para a cientista da computação Nayat Sanchez-Pi, CEO da organização de pesquisa em ciências digitais Fundación Inria Chile, seria possível usar a IA em áreas nas quais a América Latina tem vantagens comparativas, desenvolver modelos mais eficientes, adotar sistemas autônomos e fortalecer a governança digital.
“Há oportunidades a serem aproveitadas na região, alinhadas às tendências globais”, defende Sanchez-Pi. Uma delas é a chamada “IA frugal”, ou seja, soluções mais simples e baratas, que funcionam bem mesmo sem grande infraestrutura tecnológica. Outra é a “IA agênica”, formada por sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma, como organizar dados ou apoiar decisões médicas, o que pode ajudar países com falta de profissionais ou recursos.
Na prática, essas tecnologias já estão presentes no dia a dia da saúde. Sistemas ajudam médicos a identificar doenças mais cedo, analisar exames com mais rapidez e escolher tratamentos mais adequados para cada paciente. Na oncologia, por exemplo, a IA auxilia na detecção precoce de tumores; na cardiologia, acelera a análise de exames do coração; e na radiologia, funciona como um apoio na leitura de imagens médicas.
Nesse cenário, o desafio é garantir que as tecnologias sejam desenvolvidas com base em dados locais. “Modelos treinados com dados de países do Hemisfério Norte não se aplicam bem às nossas realidades”, destaca a CEO da Fundación Inria Chile. Para funcionar melhor, portanto, a IA precisa levar em conta as características específicas das populações latino-americanas.
Ao compartilhar conhecimento e desenvolver soluções em conjunto, a América Latina pode não apenas acompanhar essa transformação, mas também ajudar a definir como a inteligência artificial será usada no futuro. E isso vale para outras áreas da saúde e da ciência.
Na última década, houve avanços nas colaborações entre os países latino-americanos envolvendo estudos clínicos em estágios finais. Já na pesquisa translacional e experimental, próxima da básica, ainda há pouca interação. “Se conseguíssemos compartilhar melhor os recursos de forma regional, poderíamos alavancar muito mais rápido a contribuição da América Latina para a ciência global”, aponta Luiz Vicente Rizzo.
Por Arthur Almeida e Luiza Monteiro, da Agência Einstein