O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune multifatorial e complexa, capaz de afetar diferentes órgãos e se manifestar de formas muito distintas. Embora a ciência já saiba que há uma combinação de predisposição genética e fatores ambientais envolvidos em sua origem, ainda falta compreender completamente por que o sistema imunológico perde o equilíbrio.

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Pesquisas recentes ajudam a entender como a doença autoimune se desenvolve e evolui ao longo da vida, enquanto tratamentos seguem focados no controle dos sintomas |
“No lúpus, o organismo passa a produzir anticorpos contra seus próprios tecidos, como se confundisse o que é ameaça com o que é parte dele mesmo”, explica a reumatologista Isabella Monteiro, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. “Esse erro desencadeia uma resposta inflamatória persistente, que pode atingir pele, articulações, rins, pulmões, coração e sistema nervoso.”
Um estudo publicado em 2024 na
revista Nature indicou alguns dos mecanismos do lúpus para alterar as células de defesa T e fazê-las agirem contra o próprio corpo. A pesquisa observou que duas formas dessas células passam a enviar comandos cada vez mais confusos ao organismo. Além disso, a doença consegue “
desativar” um mecanismo de segurança do corpo, o AHR, que serve para impedir essas ordens erradas.
Mas a condição ainda é um quebra-cabeça incompleto. Durante muito tempo, foi um mistério por que os sintomas costumam diminuir com a idade, chegando até a desaparecer em alguns casos, sendo que na maioria das doenças crônicas a inflamação tende a aumentar progressivamente. Foi só em 2025 que um estudo publicado na
Science Translational Medicine encontrou algumas peças dessa questão.
A análise aponta que os mecanismos do lúpus para desativar o “interruptor” da reação inflamatória e manter o corpo sempre em estado de ataque perdem força com a idade. Isso não é apenas consequência do envelhecimento, mas do amadurecimento para entender os mecanismos da doença, o que permite ao organismo criar barreiras para sua ativação.
Para Monteiro, esses achados ajudam a mudar a forma como enxergamos a doença. “Estamos entendendo melhor que o lúpus não é apenas uma inflamação constante, mas um desequilíbrio complexo de regulação imunológica. Isso abre espaço para tratamentos mais específicos, que atuem em alvos determinados do sistema imune, e não apenas suprimam a inflamação de maneira ampla.”
Apesar desses avanços, falar em cura ainda não é possível. O tratamento continua focado no controle das crises, na prevenção de danos permanentes e na preservação da qualidade de vida. A boa notícia é que as terapias têm se tornado cada vez mais direcionadas, o que permite maior individualização do cuidado.
Desafios no diagnóstico
Outro obstáculo importante é o reconhecimento precoce da doença. Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos — cansaço, dores articulares, rigidez matinal — e podem ser confundidos com outras condições.
Lesões dermatológicas são conhecidas, mas não estão presentes em todos os casos. “O lúpus pode comprometer órgãos internos mesmo sem sinais visíveis na pele”, alerta a reumatologista. “Por isso, é fundamental valorizar sintomas persistentes e realizar investigação adequada quando há suspeita.”
O tratamento pode incluir antimaláricos, corticoides, imunossupressores e, mais recentemente, medicamentos imunobiológicos. Eles foram incluídos no rol de coberturas obrigatórias da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) em setembro de 2025, indicados para pacientes com alta incidência de sintomas.
O acompanhamento regular com reumatologista é fundamental, assim como a adesão correta ao tratamento. “Hoje conseguimos controlar a doença na maioria dos casos. O grande desafio é [garantir] diagnóstico precoce, tratamento adequado e seguimento contínuo.”
Por Bruno Bucis, da Agência Einstein