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Flávio Bolsonaro vai para a “Tonga da Mironga do Kabuletê”

14 de May de 2026 às 17:39

pauta livre/analista político
A expressão popularizada por Vinicius de Moraes e Toquinho na canção Tonga da Mironga do Kabuletê carrega um sentido irônico e mordaz. Sem significado literal preciso, a frase funciona como um recado de desprezo político e moral: uma forma debochada de mandar alguém “para longe”, para o território do vexame, da vergonha e da desmoralização. Em tempos de crise política, a frase parece ganhar novo sentido diante do escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
 

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magem criada pela IA (ChatGPT)
 
As revelações divulgadas nesta semana apontam que Flávio, hoje pré-candidato à Presidência, teria solicitado milhões de reais a Vorcaro para financiar um filme biográfico sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Áudios e mensagens publicados pela imprensa mostram o senador cobrando repasses e pressionando pela continuidade do financiamento da produção audiovisual. O detalhe que agrava o episódio é o perfil do financiador: Vorcaro está no centro do escândalo do antigo Banco Master, liquidado após investigações de fraude e corrupção, e ele próprio foi preso por suspeitas de suborno e lavagem de dinheiro. 
 
É justamente aí que a “tonga da mironga” encontra seu significado contemporâneo. A canção de Vinicius e Toquinho satirizava os poderosos e sua arrogância. Hoje, a frase serve como metáfora para o constrangimento de um grupo político que construiu sua identidade pública em torno do combate à corrupção, mas que aparece, repetidamente, enredado em relações nebulosas com personagens do submundo financeiro e político.
 
O caso revela uma contradição central da candidatura de Flávio Bolsonaro. Após anos defendendo o discurso da moralidade, sua ligação com um banqueiro investigado por fraudes para financiar um filme sobre o pai mistura projeto político, interesses privados e relações cercadas por suspeitas. O episódio é ainda mais grave porque vai além de um simples financiamento cultural. O filme sobre Jair Bolsonaro, previsto para estrear em período eleitoral, pode funcionar como propaganda política disfarçada. Nesse contexto, o aporte milionário de um banqueiro investigado por corrupção levanta uma questão inevitável: o que ele esperava em troca? 
 
A ligação com Daniel Vorcaro soma-se a denúncias antigas que acompanham Flávio Bolsonaro, como as suspeitas de rachadinha — desvio de verbas de gabinete — e as controvérsias envolvendo sua relação com Adriano da Nóbrega, ainda do período em que atuava como deputado estadual no Rio de Janeiro. Embora Flávio negue todas as acusações, a recorrência desses episódios enfraquece o discurso de integridade que sustenta sua imagem pública. Para parte do eleitorado que o via como símbolo de honestidade e combate à corrupção, os fatos recentes podem provocar uma revisão desse apoio.
 
Há um evidente dano ético: ao se associar a um banqueiro acusado de fraudes para financiar um projeto com viés eleitoral, Flávio enfraquece seu discurso anticorrupção. Como na canção de Vinicius de Moraes e Toquinho, o episódio expõe a ironia de políticos que pregam moralidade enquanto cultivam relações obscuras com o poder econômico. Diante disso, o falso moralismo vai direto para a Tonga da Mironga do Kabuletê.
 
Parafraseando o Capitão Nascimento, personagem de Tropa de Elite interpretado por Wagner Moura: “Pede pra sair, Flávio!”. 
 

Por Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Professor