 Celso Lacerda © Celso Lacerda/Arquivo pessoal |
O lixo era conhecido — e infelizmente ainda é por algumas pessoas — como algo sem serventia, inútil, sem valor ou indesejado; algo que precisava ser jogado fora, bem longe de si. Entretanto, seu verdadeiro significado vem passando por uma importante transformação cultural. Mudanças que os olhares mais atentos e ternos conseguem perceber.
O lixo que muitos desprezam é, para outros, sustento. Mata a fome, gera renda e mantém famílias. Mas também pode ser motivo de conflitos entre vizinhos que, desejando livrar-se dele, acabam depositando-o na porta do outro. Já presenciei desentendimentos indesejáveis por causa disso.
O lixo, porém, também é um grande comunicador silencioso.
No cotidiano, ele chama a atenção e desperta a curiosidade de algumas pessoas, especialmente daquelas que têm interesse em saber um pouco mais sobre a vida alheia, principalmente quando está acondicionado em sacos pretos. Surge então a pergunta inevitável: o que estará escondido ali?
E quando um cachorro rasga o saco e expõe seu conteúdo, a curiosidade é satisfeita. A partir daí, a imaginação produz sentimentos diversos: alguns positivos, outros negativos, e até mesmo amorosos.
O lixo colocado em sacos transparentes torna-se um verdadeiro sinalizador da vida de quem o produz.
Mesmo misturado a objetos variados, acaba revelando fragmentos da rotina, dos hábitos e da história de uma pessoa.
Uma senhora querida, moradora ao lado de minha casa, disse-me certa vez:
— Hoje fiquei preocupada. Não vi você o dia inteiro, nem o lixo apareceu à porta.
Naquele instante, compreendi que o lixo também era um retrato discreto de nossas vidas. Mais do que resíduos, ele anunciava presenças, rotinas e a continuidade dos nossos dias. Era um sinal silencioso de que estávamos ali, vivos, habitando o mesmo pedaço de mundo.
Percebíamos quando estávamos bem, quando permanecíamos ativos e até quando tudo seguia normalmente, apenas observando os sacos deixados à porta.
Mas o lixo também pode ser poesia.
Quando o olhar procura aquilo que alegra a alma, começa a enxergar a beleza onde muitos veem apenas descarte.
Muitas pessoas já se encontraram pela cumplicidade silenciosa do cotidiano. E, quem sabe, até pelo lixo.
A imaginação criava pontes. Os pequenos sinais despertavam curiosidade, carinho e interesse.
Aos poucos, surgia uma aproximação afetuosa, como se aquelas pessoas já se conhecessem há muito tempo.
E assim, de maneira simples e inesperada, corações foram se encontrando e aprendendo a amar.
O lixo, justamente por aparentar não significar nada, acabava revelando quase tudo: o que o outro comia, comprava, os remédios que utilizava, seus hábitos mais simples e até aspectos íntimos de sua rotina.
Era um retrato quase transparente da pessoa observada.
Nesse intervalo entre a curiosidade e a imaginação, o desejo e a criatividade se misturavam.
E aquilo que começou apenas como observação tornava-se rotina do olhar.
Até que, um dia, a alma já não conseguiu esconder seus sentimentos. Aproximou-se do outro e, carinhosamente, uniu-se a ele em belos enlaces de amor. Foi assim que, entre silêncios, curiosidades e pequenos sinais do cotidiano, o lixo me trouxe você.
Por Celso Lacerda, membro da ABL/Barreiras (BA)
Direitos autorais: Lei nº 9.610/98