 Celso Lacerda © Celso Lacerda/Arquivo pessoal |
O sabiá da minha infância ainda mora dentro de mim.
Lembro-me perfeitamente dele no quintal da minha casa, saltitante, comendo pimenta e cantando como se agradecesse pelo fruto avermelhado, ardente e delicioso, que parecia alimentar ainda mais o seu dom de cantar. Alegremente, voava de um lado para o outro e, com seu canto, acariciava a natureza como forma de agradecimento pela beleza concedida por Deus.
Ficava horas a fio com os ouvidos em silêncio e, como um ímã, buscava captar, com serenidade e compasso da alma, a sinfonia que se misturava ao balançar das palhas do coqueiral, bailando livremente ao sabor do vento, ora forte, ora suave, vindo do mar.
Quantas vezes o canto do sabiá ficou grudado no meu pensar! Em muitas delas procurei imitá-lo através do meu assobio trêmulo. Bastava começar a assobiar para chamar a atenção daquele belo pássaro silvestre, que parecia contracenar comigo, respondendo com melodias encantadoras que se colavam suavemente à minha alma.
Por vezes, cheguei até a entristecer-me ao apreciar o cantar do sabiá. Era um momento de inteira entrega, acompanhado pelas recordações de pessoas amadas, de lugares felizes, de amores que partiram e de saudades que doíam no mais profundo da alma.
O canto do sabiá pode até soar melancólico. Mas, quando canta, derrama tudo o que traz no peito: sentimento, beleza e emoção. E, num leve empinar do peito, sem medo e cheio de desejo, parece beijar a vida.
Talvez seja por isso que o sabiá da minha infância nunca tenha ido embora. Continua morando dentro de mim e, sempre que canta, desperta lembranças adormecidas, faz a minha alma voltar para casa e me lembra que a infância nunca abandona aqueles que aprenderam a escutar a natureza.
Por Celso Lacerda, membro da ABL/Barreiras (BA)
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