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Brasil, um "novo tempo, apesar dos perigos"

06 de julho de 2026 às 16:54

pauta livre/analista político
No último domingo, dia 5 de julho, o Brasil deu adeus à Copa do Mundo de 2026. Foi uma despedida esquisita, pois o jogo também foi esquisito. Diria que foi um jogo de uma seleção só: a Noruega. Depois da ressaca e da tristeza, é preciso analisar com frieza esse ciclo do Brasil até a Copa do Mundo.
 

© Reprodução/iRede Social/nstagram.com/
 
O primeiro fator de observação é a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Essa entidade, que teve seus últimos presidentes presos ou acusados de corrupção, não tem a confiança do povo brasileiro. Seria necessário repensar a gestão do futebol no Brasil, pois tanto a CBF quanto os clubes têm suas administrações marcadas por diversos problemas de gestão e vêm se transformando em "sucursais" do capital internacional. A chamada "alma" do futebol brasileiro vai se perdendo, e o resultado é um comprometimento cada vez menor com o futebol nacional. Seria o caso, inclusive, de pensar em uma intervenção na CBF e auditar essa entidade para varrer a sujeira e reiniciar um novo tempo.
 
A segunda questão é iniciar um ciclo tendo como perspectiva a mudança geracional, pois o futebol é constituído por gerações. A geração de Pelé e Garrincha (1958–1970) disputou quatro Copas do Mundo e conquistou três títulos. Já a geração de Zico e Sócrates disputou três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986). Não conquistou nenhum desses torneios, mas marcou sua época com o belíssimo futebol praticado pela Seleção de 1982, comandada pelo técnico Telê Santana.
 
A geração de Dunga e Romário, que disputou as Copas de 1990, 1994 e 1998, deu origem à geração de Ronaldo, Cafu e Ronaldinho Gaúcho. Embora Ronaldo e Cafu tenham participado da conquista do tetracampeonato em 1994, foi a partir da Copa de 1998 que essa nova geração assumiu o protagonismo, mantendo-o também nas edições de 2002 e 2006. O resultado desses dois ciclos geracionais foi extremamente exitoso: a conquista de dois títulos mundiais (1994 e 2002) e a presença do Brasil em três finais consecutivas (1994, 1998 e 2002).
 
A geração seguinte marcou um momento estranho na Seleção: a chamada dependência de um único jogador para decidir as partidas, algo que não acontecia anteriormente, pois a equipe contava com vários atletas capazes de decidir um jogo a qualquer momento.
 
A Copa de 2010 marcou a dependência da Seleção em relação a Kaká, que não estava em suas melhores condições físicas, embora tivesse sido eleito o melhor jogador do mundo em 2008. Já o ciclo de 2014, 2018, 2022 e 2026 foi marcado pela "Neymardependência". Ou seja, o futebol da Seleção Brasileira tornou-se excessivamente dependente de um jogador que, no início da carreira, encantou o mundo, mas que, com o passar dos anos, foi perdendo rendimento, diminuindo sua capacidade de entregar um grande futebol e tornando-se símbolo de problemas extracampo. Mesmo assim, foi convocado para quatro Copas do Mundo.
 
Parece (digo parece) que a eliminação para a Noruega de Haaland, o galego carrasco, na Copa do Mundo de 2026, pode representar o início de um "novo tempo, apesar dos perigos. Perigos que não se resumem à gestão temerária da CBF, mas incluem também a crescente influência das casas de apostas, que assediam cada vez mais cedo os grandes talentos do futebol brasileiro e ameaçam comprometer o desenvolvimento de suas carreiras. Que essa eliminação sirva como um ponto de inflexão. Abram alas para Estevão, Endrick, Rodrygo, Rayan, Matheus Pereira, Kaio Jorge, Renê, Luciano Juba, Luiz Henrique e tantos outros talentos que podem surgir e liderar esse novo ciclo da Seleção Brasileira.
 
Que essa próxima geração não crie dependência em torno de um único jogador e consiga recuperar a essência do futebol brasileiro: os dribles, a criatividade e o jogo sem medo de qualquer adversário.
 
Sigamos na luta, como diz o mestre Luciano Santos , apaixonado por futebol. Sigamos!
 
Por Ivandilson Miranda Silva, filósofo, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA; professor Doutor da Universidade do Estado da Bahia e Coordenador do Grupo de Pesquisa Pensamento e Outras Contemporaneidades.