A eventual aprovação do fim da escala de trabalho 6x1 pelo Senado pode produzir um fato novo de enorme impacto na corrida presidencial e, dependendo de sua repercussão entre os eleitores, contribuir para uma definição da eleição ainda no primeiro turno.

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As próximas semanas prometem ser decisivas. Em uma eleição marcada pela polarização entre as principais candidaturas e pela existência de blocos eleitorais bastante consolidados, qualquer medida capaz de dialogar diretamente com a vida cotidiana dos trabalhadores poderá influenciar o comportamento dos chamados eleitores indecisos.
É justamente nesse ponto que o governo do presidente Lula pode obter uma vantagem política importante. O fim da escala 6x1 toca em uma questão concreta: tempo de trabalho, descanso, qualidade de vida e direitos trabalhistas. Se a proposta for aprovada e associada a uma forte mobilização política e social, Lula poderá apresentar a medida como uma conquista direta para milhões de trabalhadores.
A oposição, naturalmente, sabe do potencial eleitoral dessa pauta. Por isso, setores ligados à candidatura de Flávio Bolsonaro vêm pressionando para retardar a votação e empurrar a decisão para depois das eleições. A estratégia é simples: evitar que o governo chegue às urnas apresentando uma nova vitória de forte apelo popular.
Nesse cenário, a relação entre o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ganha importância estratégica. Depois de um período de desgaste provocado, entre outros episódios, pela votação que rejeitou o candidato indicado por Lula para o Supremo Tribunal Federal, os dois lados parecem ter reconstruído canais de diálogo.
A reaproximação poderá ser fundamental para a agenda do governo no Senado. Além do fim da escala 6x1, estão no radar outras pautas de grande repercussão política e econômica, como a chamada “taxa das blusinhas” e a PEC da Segurança Pública.
Se o governo conseguir transformar essa agenda em resultados concretos antes da eleição, poderá chegar à reta final da campanha com um argumento eleitoral poderoso: o de que está entregando medidas capazes de afetar diretamente a vida dos brasileiros.
Mas há um elemento que merece atenção
As últimas pesquisas começam a apresentar sinais de movimentação no eleitorado e indicam crescimento da candidatura de Augusto Cury, fato que reacendeu o entusiasmo das chamadas “viúvas e viúvos da terceira via”. Embora ainda seja cedo para afirmar que esse movimento representa uma tendência consolidada, o desempenho de Cury deve ser acompanhado com atenção nas próximas rodadas de pesquisas.
É nesse ambiente de disputa acirrada que o fim da escala 6x1 pode se transformar no grande fato novo da eleição.
Uma eventual aprovação não significaria, automaticamente, uma vitória de Lula no primeiro turno. Eleições são fenômenos complexos e dependem de uma combinação de fatores econômicos, políticos, sociais e eleitorais. Mas, se a medida for aprovada, ganhar forte repercussão popular e for incorporada ao discurso da campanha governista, poderá alterar significativamente o humor de uma parcela do eleitorado.
No xadrez eleitoral, Lula procura uma jogada capaz de deslocar o debate da polarização política para a vida concreta do trabalhador.
O fim da escala 6x1 pode ser exatamente essa jogada.
E, se vier acompanhado de outras conquistas da agenda governista, poderá representar um verdadeiro xeque-mate político no bolsonarismo — ou, no mínimo, obrigá-lo a mudar sua estratégia para o segundo turno.
Por
Ivandilson Miranda Silva, filósofo e Doutor em Educação