A eleição de 2026 será decidida nos detalhes. A diferença entre os principais candidatos é pequena, e o cenário eleitoral revela um equilíbrio de forças que não permite espaço para acomodação. De um lado, o lulismo mantém uma base orgânica de apoiadores; do outro, o bolsonarismo continua mobilizado, barulhento e capaz de transformar qualquer episódio político em combustível para sua militância.

Lula © Ricardo Stuckert/Divulgação
Neste momento, o presidente Lula aparece com uma pequena vantagem nas pesquisas de opinião. Mas é preciso dizer com todas as letras: dois ou três pontos de vantagem a pouco mais de um mês da eleição estão longe de representar uma situação confortável. Em uma disputa polarizada, qualquer mudança na percepção do eleitor pode alterar rapidamente o cenário.
É justamente nesse contexto que a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal ganha importância política. Os últimos acontecimentos abriram espaço para que a oposição recuperasse terreno no campo da narrativa e deslocasse o debate público para uma agenda que, neste momento, pode ser mais favorável ao bolsonarismo.
Questões envolvendo o entorno político e familiar de Flávio Bolsonaro, que poderiam ocupar espaço relevante no debate eleitoral, acabaram perdendo visibilidade diante da avalanche de notícias relacionadas ao Supremo. Quando a oposição consegue escolher a pauta, ela também consegue, em boa medida, escolher o terreno da disputa.
É aí que está o problema da campanha de Lula. Se a direção da campanha presidencial e os partidos que sustentam sua candidatura não forem capazes de estabelecer uma agenda própria, correm o risco de passar a campanha inteira respondendo às pautas impostas pela oposição. E eleição não se ganha apenas reagindo ao adversário. É preciso disputar o imaginário do eleitor, apresentar propostas concretas e, principalmente, falar sobre aquilo que afeta diretamente a vida das pessoas.
Nesse sentido, poucas pautas possuem hoje potencial tão forte quanto o fim da escala 6x1.
A discussão sobre a jornada de trabalho pode alcançar diretamente milhões de brasileiros. É uma pauta capaz de dialogar com a vida cotidiana de quem acorda cedo, enfrenta transporte público lotado, trabalha seis dias por semana e dispõe de pouco tempo para a família, o lazer, os estudos e a própria vida.
Por isso, o fim da escala 6x1 precisa deixar de ser apenas uma discussão institucional e passar a ocupar o centro do debate político nacional. É necessário transformar a proposta em uma bandeira popular, compreensível e mobilizadora — uma pauta que circule nas redes sociais, nos locais de trabalho, nas universidades, nos sindicatos, nos bairros e nas ruas.
A esquerda precisa disputar corações e mentes. Se o governo e os partidos aliados conseguirem transformar o fim da escala 6x1 em uma grande agenda nacional, poderão deslocar o debate eleitoral da crise institucional para a vida concreta dos trabalhadores. E essa mudança de chave pode ser decisiva.
Não se trata de ignorar a crise do Supremo Tribunal Federal. Trata-se de não permitir que ela monopolize o debate eleitoral. A esquerda não pode aceitar passivamente que o adversário determine diariamente quais assuntos serão discutidos pelo país.
Eleição também é disputa de narrativa. E quem não constrói sua própria narrativa acaba vivendo dentro da narrativa construída pelo adversário.
Por isso, a hora é de mudar a chave. Menos reação às pautas da oposição e mais iniciativa política. Menos disputa em torno das crises institucionais e mais debate sobre o futuro da vida dos trabalhadores.
O fim da escala 6x1 pode ser muito mais do que uma proposta legislativa. Pode se transformar em uma bandeira eleitoral capaz de conectar o governo Lula com uma parcela decisiva do eleitorado.
Se a eleição será decidida no detalhe, talvez esse seja justamente o detalhe que a campanha de Lula precisa enxergar: Ou muda a pauta, ou corre o risco de perder a eleição.
Pelo fim da Escala 6X1 já em todos os lugares do Brasil. Os trabalhadores precisam também de lazer e descanso.
Por
Ivandilson Miranda Silva, filósofo, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB. Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA.