 Celso Lacerda © Celso Lacerda/Arquivo pessoal |
Com o passar do tempo, a gente vai se dando conta — quase sem perceber — de que, dia após dia, se afasta daquilo que um dia sustentou o brilho no olhar: a inocência, a ingenuidade, a confiança inteira, a entrega desarmada, a cumplicidade silenciosa... Tudo aquilo que fazia a alma brilhar sem esforço.
Ainda guardo nítida a memória daquele olhar sereno, tentando alcançar o horizonte que se perdia na imensidão do céu; lembro da lágrima salgada deslizando pelo rosto como quem busca no mar um jeito de adoçar o tempo que evapora e se dispersa no ar.
O tempo corre apressado, como se obedecesse a um ritual que só ele entende — e deixa atrás de si um vazio oco, um espaço feito para as lembranças cinzentas que, às vezes, são empurradas para o silêncio.
Quantas vezes a gente volta pra casa e não há ninguém esperando. As coisas ficam no mesmo lugar, como se tivessem sido condenadas à imobilidade — adormecendo, lentamente, no balanço do silêncio.
Portas e janelas fechadas abraçam a escuridão-solidão. A gente chega sem precisar bater, porque nenhum chamado será ouvido — e, se bater, o eco se perderá no labirinto vazio do que não responde.
O curioso é que a gente vai seguindo uma vida que nunca imaginou viver — e ainda assim insiste em procurar alguma forma de felicidade. Aos poucos, percebe que já não dói como antes não ter alguém ao lado. O tempo passa, a idade amadurece, e a gente vai se conformando com a travessia que leva a novos amanheceres. Há instantes em que a lembrança retorna com saudade — daquela época em que se dormia e acordava pensando no amor. O friozinho na barriga, o coração batendo feito anúncio de encontro, o desejo de pertencer: tudo aquilo que fazia as almas se reconhecerem no voo manso do aconchego amoroso.
Porque a gente não é pedra arrastada apenas pela enxurrada da chuva. A gente não é fiapo largado no vento. Também não somos escuridão sem nenhuma fresta de luz. A gente é alma, é respiro, é esse corpo sensível que, por um simples toque, um olhar ou um sorriso, se oferece inteiro — e se entrega, com ternura e coragem, nos braços da cumplicidade que sabe amar.
Por Celso Lacerda, membro da ABL/Barreiras (BA)
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