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Como a teranóstica pode tornar o tratamento do câncer mais personalizado

28 de outubro de 2026 às 17:34

saúde/agência einstein
A teranóstica é uma abordagem que combina exames de imagem e tratamentos direcionados ao câncer. O termo tem origem nas palavras terapia e diagnóstico, e seu exemplo mais antigo é o uso do iodo radioativo no câncer de tireoide, iniciado ainda na década de 1940.


© Reprodução/Agência Einstein

Novos marcadores, dosimetria e uso de IA
são investigados para tornar mais individualizado
o tratamento contra diferentes tumores
 
De maneira simplificada, o método procura uma característica biológica presente em grande quantidade nas células do tumor. Uma molécula capaz de reconhecer esse alvo é ligada a um material radioativo, que permite visualizar, por meio de exames de imagem, onde ele está presente. Se as lesões apresentarem a característica procurada e o paciente tiver indicação para o tratamento, essa mesma característica pode ser utilizada para direcionar até elas um material que emite radiação.
 
O avanço observado nos últimos anos está relacionado, entre outros fatores, à identificação de novos alvos e ao desenvolvimento de radioisótopos capazes de ser usados no tratamento. Além do câncer de tireoide, já existem aplicações em tumores neuroendócrinos e no câncer de próstata.
 
Um dos principais alvos é o PSMA, proteína encontrada em maior quantidade em células tumorais do que nos tecidos normais. Um exame de PET pode mostrar quais lesões captam uma molécula dirigida ao PSMA e em que intensidade isso acontece. Em pacientes selecionados, o mesmo alvo pode ser utilizado para levar lutécio-177, que emite radiação beta, às áreas atingidas pela doença. “A imagem hoje é parte essencial do tratamento. E não é só ter o diagnóstico de um câncer de próstata que ele necessariamente vai expressar o PSMA”, explica o médico Marcelo Araújo Queiroz, gerente de Medicina Nuclear e Teranóstico do Einstein Hospital Israelita.
 
Tumores classificados da mesma maneira não apresentam necessariamente as mesmas características. A diferença pode ocorrer, inclusive, dentro de uma única pessoa, com algumas metástases apresentando maior quantidade de determinado alvo do que outras. Além de identificar se uma lesão apresenta ou não a característica procurada, os exames começam a ser usados para obter informações como se a intensidade da captação de um radiofármaco pode ajudar a prever a resposta ao tratamento.
 
Perguntas (ainda) sem resposta
 
Embora a teranóstica seja uma abordagem personalizada pela seleção do alvo e dos pacientes, a quantidade de radioisótopo administrada em alguns tratamentos segue esquemas padronizados. Mas essa é uma questão em aberto. “Será que, para alguns pacientes, quatro ciclos já seriam suficientes para entregar a dose necessária ao tumor? Ou outros precisariam de oito ciclos para chegar à quantidade de radiação necessária?”, questiona Queiroz.
 
Uma das possibilidades é ajustar a dose de acordo com a quantidade de radiação efetivamente absorvida pelas lesões e pelos tecidos saudáveis de cada indivíduo, a chamada dosimetria. Essa avaliação já é realizada em centros especializados, especialmente fora do Brasil. No entanto, sua utilização para definir a quantidade de radioatividade administrada e o número de ciclos de tratamento ainda não é uma prática amplamente estabelecida e depende de mais evidências científicas.
 
Outra linha de pesquisa busca combinar a teranóstica com outras formas de tratamento. Entre as possibilidades estão associações com imunoterapia e terapias-alvo, além do uso de diferentes tipos de radioisótopos ao longo do cuidado.
 
Projetos de pesquisa nacionais
 
A busca por ampliar as possibilidades da teranóstica é o foco do Centro de Inovação em Câncer com Ênfase em Metais e Teranóstico (CancerThera), em São Paulo, financiado pela Fapesp. Nos três primeiros anos do projeto, pesquisadores avaliaram por imagem mais de mil pacientes para estudar a presença do PSMA em diferentes tumores e verificar se as lesões conseguiam captar moléculas dirigidas a esse alvo.
 
As avaliações mostraram divergências importantes não apenas entre pacientes com o mesmo tipo de câncer, mas também entre diferentes áreas da doença em uma mesma pessoa. “Alguns tumores apresentam maior avidez, ou seja, alta captação do marcador, em determinados pacientes e não em outros. Essa característica também pode variar entre diferentes áreas do tumor”, afirma o pesquisador principal e diretor médico onco-hematologista Carmino Antônio de Souza, professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp).
 
Os resultados estão sendo analisados para compreender até que ponto o PSMA pode ser aproveitado para além do câncer de próstata. Souza explica que, apesar de ter sido inicialmente descrito como um marcador associado à próstata, o PSMA também pode estar relacionado à neoangiogênese, processo de formação de novos vasos sanguíneos, e ser encontrado em outros tumores.
 
No Einstein, a teranóstica é vista como uma aliada em toda a jornada de tratamento do paciente. “Temos uma infraestrutura voltada especificamente para essa área, com equipamentos de PET-CT e SPECT-CT de última geração, além de diferentes softwares para análise das imagens. Nesse processo, também começamos a incorporar ferramentas de inteligência artificial”, relata Marcelo Queiroz.
 
Desafios para avançar
 
Uma das questões ainda em investigação é até que ponto a teranóstica poderá ser utilizada em fases mais precoces do câncer. Como ocorre no desenvolvimento de outros tratamentos, as primeiras pesquisas costumam envolver pacientes com doença avançada e poucas alternativas disponíveis. Estudos posteriores precisam avaliar a toxicidade, identificar a resposta e comparar as novas estratégias com tratamentos já utilizados.
 
De acordo com o professor da Unicamp, levar a abordagem a estágios mais iniciais ainda depende de maior conhecimento sobre a biologia dos tumores, as imagens relacionadas a cada tipo de câncer, os diferentes traçadores e os radiofármacos que poderão ser empregados. O pesquisador aponta também a cooperação entre centros brasileiros e internacionais como um dos caminhos para encurtar esse processo.
 
A disponibilidade dos materiais radioativos está entre os obstáculos apontados pelos pesquisadores para ampliar a teranóstica no Brasil. Parte dos radioisótopos empregados ou estudados precisa ser importada, interferindo no custo e na disponibilidade dos tratamentos.
 
Uma das possibilidades apontadas para reduzir a dependência externa é o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), planejado para ser entregue até 2030 no interior de São Paulo. Segundo Marcelo Queiroz, a estrutura poderá ampliar a produção nacional de radioisótopos, como o lutécio-177, e dar mais segurança ao abastecimento. “Hoje, no Brasil, os isótopos são importados. Esse reator poderia nos dar autonomia na produção de alguns isótopos radioativos”, conclui.
 
A infraestrutura necessária também vai além da disponibilidade do radiofármaco. A seleção do paciente depende de exames de medicina nuclear capazes de mostrar se o tumor apresenta o alvo procurado. Depois do tratamento, outros exames podem ser necessários para acompanhar a distribuição da radiação e seus efeitos.
 
O direcionamento do tratamento para características presentes no tumor também não significa que apenas células cancerosas recebam radiação. Tecidos saudáveis podem captar parte do radiofármaco. No tratamento dirigido ao PSMA, por exemplo, as glândulas salivares também apresentam captação e alguns pacientes desenvolvem xerostomia, caracterizada pela redução da produção de saliva.
 
Rins e medula óssea estão entre outras estruturas que podem exigir acompanhamento, dependendo do radiofármaco utilizado e da localização das lesões. No caso dos tratamentos de tumores neuroendócrinos com lutécio-DOTATATO, por exemplo, aminoácidos podem ser administrados para proteger os rins, enquanto o estímulo à produção de urina favorece a eliminação mais rápida da substância radioativa.
 
Por Moura Leite Netto, da Agência Einstein