Agachar encostado na parede e sustentar a posição por alguns segundos parece algo simples, mas esse tipo de exercício, conhecido como isometria, pode ajudar a reduzir a pressão arterial. É o que aponta um estudo publicado em setembro na revista científica
BMJ Open Sport & Exercise Medicine.

© Reprodução/Agência Einstein
Pesquisa constatou que fazer esses movimentos três vezes por semana trouxe melhores resultados em comparação a quem praticava menos |
Os autores acompanharam 100 adultos que, durante as primeiras quatro semanas de análise, fizeram exercícios isométricos três vezes por semana. Nesse tipo de atividade, os músculos permanecem contraídos para sustentar uma posição, sem movimentos articulares significativos. No estudo, os autores avaliaram o agachamento na parede, em que a pessoa apoia as costas e dobra os joelhos, como se estivesse sentada em uma cadeira imaginária. Outro exemplo de exercício isométrico é a prancha abdominal.
Depois desse período, os participantes foram divididos em grupos que mantiveram a frequência do movimento, reduziram o treinamento para duas ou uma sessão semanal ou interromperam a prática. Nas quatro semanas seguintes, quem diminuiu a frequência preservou parte dos benefícios alcançados, enquanto aqueles que continuaram treinando três vezes por semana apresentaram os melhores resultados na pressão sistólica — termo que se refere à pressão dentro das artérias no momento em que o coração se contrai para impulsionar o sangue. Em uma pressão de 12 por 8, por exemplo, corresponde ao 12, ou 120 mmHg
Mas o que explica esse efeito? Durante a contração sustentada, os músculos comprimem os vasos que passam por eles, dificultando temporariamente a circulação local. Quando a musculatura relaxa, o fluxo de sangue aumenta. Isso estimula o endotélio, camada que reveste internamente os vasos, a liberar substâncias como o óxido nítrico, que favorece a dilatação das artérias. “Com a repetição do treinamento, esse mecanismo pode melhorar a capacidade dos vasos de relaxar e diminuir a resistência à passagem do sangue, contribuindo para a redução da pressão em repouso”, detalha o cardiologista Murilo Meneses Nunes, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
O exercício isométrico também pode influenciar o sistema nervoso autônomo, responsável por regular funções involuntárias do organismo, e aprimorar o barorreflexo, mecanismo que detecta alterações na pressão e ajuda o corpo a corrigi-las. “A combinação dessas adaptações vasculares e nervosas parece explicar parte do benefício, embora a participação de cada mecanismo ainda esteja em investigação”, observa Nunes.
Três vezes por semana é ideal
Embora, segundo o estudo, uma sessão semanal de exercícios isométricos já ajude a preservar parte dos benefícios para a pressão arterial, isso não deve ser tomado como recomendação. Até porque a pesquisa avaliou essa frequência como estratégia de manutenção após um mês de treinamento mais intenso. “Eles não testaram se começar diretamente com uma sessão por semana produziria o mesmo resultado. Por isso, três sessões semanais, em dias alternados, continuam sendo uma referência razoável para um programa orientado”, indica o cardiologista.
A redução para uma ou duas sessões de exercícios isométricos por semana pode ser uma alternativa quando a rotina dificulta manter a frequência habitual, mas não há evidências suficientes para afirmar que esse ritmo seja ideal para todas as pessoas ou que os efeitos durem por períodos prolongados.
Outro ponto importante é que a pesquisa não incluiu pessoas com hipertensão diagnosticada. Os participantes tinham pressão sistólica entre 120 e 140 mmHg e não usavam medicamentos para controlá-la. Além disso, a isometria não precisa ser a única modalidade de exercício praticada. “Ela pode complementar uma rotina de exercícios. Caminhar, pedalar, nadar e fazer exercícios de fortalecimento muscular continuam importantes para a saúde cardiovascular e oferecem benefícios que vão além do controle da pressão arterial”, afirma Murilo Nunes.
Partiu treino?
Nem todo mundo pode começar a fazer exercícios isométricos sem orientação. Pessoas com hipertensão devem estar com a pressão controlada e seguir corretamente o tratamento prescrito antes de iniciar esse tipo de treinamento. “Durante os exercícios, é importante respirar continuamente, sem prender o ar nem fazer força excessiva. A intensidade, a duração das contrações e a posição devem ser ajustadas à capacidade física de cada um”, orienta o médico do Einstein em Goiânia. Quem tem pressão descontrolada, doença cardiovascular ou sintomas durante o esforço precisa passar por avaliação médica.
A pesquisa teve duração de oito semanas, por isso ainda são necessários estudos mais longos para verificar por quanto tempo os benefícios podem ser mantidos e qual frequência funciona melhor para diferentes grupos. “Há evidências de que o treinamento isométrico reduz a pressão arterial, mas ainda não há evidência suficiente de que essa modalidade reduza infartos, AVC [acidente vascular cerebral] ou mortes cardiovasculares”, observa Murilo Nunes.
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein